

ECONOMIA
O que colapso do regime Maduro significa para a economia brasileira
João José Oliveira e Alexandre Novais GarciaDo UOL, em São Paulo
A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e a ruptura do regime do presidente Nicolás Maduro deve repercutir na economia brasileira no curtíssimo prazo, por meio da maior volatilidade nos mercados financeiros e da cotação do petróleo, mas com impacto limitado no médio e longo prazos sobre o PIB (Produto Interno Bruto), já que é pequena a participação do país vizinho nas relações econômicas internacionais brasileiras, segundo analistas

Venezuela é o 52º comprador das exportações brasileiras, após anós de declínio na corrente de comércio entre os dois países. Imagem: Freepik
O que aconteceu
Mudança de regime na Venezuela terá repercussão de curto prazo na economia brasileira. O impacto da ação americana será provocado pela maior volatilidade nos preços dos ativos negociados nos mercados de câmbio, juros, ações e commodities.
Os agentes vão reagir com cautela às incertezas sobre a continuidade das atividades econômicas venezuelanas, como exploração de petróleo, importação e exportação desse e de outros produtos.
Por isso, há expectativa de queda de ações de empresas brasileiras negociadas em Bolsa, assim como do real ante o dólar, com alta das taxas de juros a partir de amanhã.
Em termos comerciais, a relação Brasil-Venezuela é pequena, mas as repercussões e desdobramentos vão além. A intervenção direta dos Estados Unidos em um país sul-americano abre precedente inédito, ferindo a soberania nacional e os preceitos do multilateralismo. E isso terá impactos econômicos, a depender do grau e duração da declarada intervenção norte-americana no país.
Como isso não está suficientemente claro, no mercado brasileiro teremos volatilidade cambial e incertezas nos ativos financeiros, na Bolsa, nos juros.
Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor em economia da PUC-SP
Inflação deve ser monitorada. Segundo o economista da PUC-SP, se perdurar a alta do petróleo e de outros ativos financeiros, como o dólar, há risco de que parte desse movimento contamine os índices de preços. Nesse cenário, o Banco Central brasileiro pode optar por aguardar mais antes de começar a cortar da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 15% ao ano. Isso pode contrariar a expectativa predominante entre os agentes de mercado, até o fim de 2025, de que o afrouxamento monetário poderia começar entre março e julho deste ano.
Conflitos militares tendem a elevar incerteza global. Por isso, segundo profissionais do mercado financeiro, há expectativa de que ocorra, no primeiro momento, alguma saída de capital de ativos de risco, em especial de Bolsas localizadas fora do eixo Nova York-Londres.
É de se esperar no curto prazo valorização de ativos de proteção, como ouro e dólar, e aumento da volatilidade em Bolsas emergentes.
Francislei Neves Souza, economista da Eurotrader
Venezuela é apenas o 52º comprador das exportações brasileiras. Entre janeiro e novembro deste ano, as exportações brasileiras para a Venezuela somaram US$ 751 milhões, queda de 32% ante igual período de 2024, passando a representar apenas 0,24% das vendas brasileiras ao exterior.
Já as importações recuaram 23%, para US$ 314 milhões, ou 0,12% das compras do Brasil do país vizinho.
Corrente de comércio diminuiu 30%, para US$ 1,1 bilhão em 2025 ante 2024. Para comparar, em 2016, a corrente era de US$ 3,7 bilhões, sendo US$ US$ 3 bilhões em vendas brasileiras. Por conta dessa corrente comercial atualmente baixa, o impacto imediato do evento na Venezuela sobre a economia brasileira tende a ser mínimo.
Segundo projeções recentes do Bradesco BBI, a balança comercial brasileira com os venezuelanos tem peso inferior a 0,03% no PIB (Produto Interno Bruto).
Enfraquecimento da economia venezuelana nos últimos ano limita impacto do evento sobre Brasil. Segundo o economista e professor de geopolítica da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo), Paulo Feldmann, embora a população venezuelana some perto de 28 milhões de pessoas, o mercado interno perdeu espaço no comércio global por causa da queda do PIB renda per capita, que recuou de US$ 13,6 mil para US$ 4,2 mil desde 2010.
Do ponto de vista do Brasil, o mercado venezuelano não é significativo. As compras da Venezuela em relação ao Brasil como exportador são pequenas e o Brasil também compra muito pouco da Venezuela e, ainda assim, certamente vai encontrar outras alternativas pelo mundo.
Paulo Feldmann, professor de geopolítica da FEA/USP
Mercado de petróleo mais sensível
Presidente Donald Trump disse que permitirá que as petroleiras americanas entrem na Venezuela para explorar grandes reservas de petróleo. A expectativa de que seja levado adiante o plano de intervenção americana no país que detém a maior reserva da commodity do mundo, impacta de forma imediata essa atividade econômica, com reflexos no Brasil, onde a estatal Petrobras é a protagonista.
Incerteza sobre oferta da commodity deve pressionar preços no primeiro momento. A primeira repercussão, no curto prazo, deve ser um aumento da cotação do barril no mercado internacional por causa da expectativa de uma eventual redução da oferta do produto no primeiro momento, segundo Roberto Ardenghy, presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis).
Petrobras é empresa brasileira mais exposta ao mercado de petróleo. A petroleira brasileira tende a ser influenciada por dois motivos: por ter tido negócios e ser uma potencial candidata a projetos na Venezuela e por ter seu balanço diretamente influenciado pela cotação do petróleo no mercado internacional.
ANP traça cenário positivo para Petrobras. No primeiro momento, a alta do petróleo deve favorecer a Petrobras por causa da valorização do barril no mercado global. Para o presidente da ANP (Agência Nacional de Petróleo), Artur Watt Net, em entrevista ao colunista do UOL Júlio Wiziack, a pressão sobre a cotação da commodity deve ser alimentada pela expectativa de retração na produção de óleo da Venezuela.
Pauta de exportação
Entre principais produtos vendidos pelos brasileiros à Venezuela estão itens primários. De janeiro a novembro deste ano, o Brasil vendeu US$ 114 milhões de açúcar e derivados (17,3% do total), US$ 97 milhões em alimentos (11,8%) e US$ 40 milhões em veículos (5,3% do total), segundo dados mais recentes da Comex, do MIDC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Venezuela passou da quarta para a 29ª posição entre países importadores do agro brasileiro. As exportações anuais brasileiras desse setor cederam de US$ 3 bilhões, em 2014, para US$ 919 milhões em 2024.
Brasil importa produtos primários. Entre os itens mais comprados pelo Brasil da Venezuela estão adubos e fertilizantes (40,4%), alumínio (30,7%), álcoois (15,5%) e produtos residuais de petróleo (7,8%), além de elementos químicos inorgânicos (3,9%).
Economias de estados da fronteira brasileira com Venezuela podem ser mais afetadas. Esse é o caso de Roraima, que em 2024 teve na Venezuela 46% de suas exportações no ano, ou R$ 145 milhões dos US$ 314 milhões em mercadorias vendidas ao exterior. Os setores mais atingidos no estado são os de alimentos, como óleo de soja, farinha de trigo e compostos lácteos.
Cenários para médio e longo prazos
Demanda venezuelana pode reagir no longo prazo, mas incerteza predomina no primeiro momento. A participação limitada da Venezuela na balança comercial brasileira seguirá limitada, diz o presidente executivo da AEB (Associação de Comércio Exterior), José Augusto de Castro. Para ele, o setor de petróleo deve ser o único a repercutir de alguma forma a prisão de Maduro. Segundo ele, apenas se forem confirmadas as promessas de investimentos americanas haverá uma repercussão positiva para a economia brasileira no médio ou longo prazo.
Venezuela não tem dinheiro. Se passar a ter caixa, país tende a aumentar as compras do Brasil. Se voltar a ter 30% do que já importou do Brasil, já teremos uma situação melhor. José Augusto de Castro, presidente executivo da AEB
Brasil pode perder no longo prazo se atuação americana de fato ampliar produção na Venezuela. Se confirmada a promessa de Donald Trump de que as petroleiras americanas vão atuar e controlar a indústria petrolífera venezuelana, haverá maior oferta global da commodity, diz Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura). Investimentos que poderiam vir para cá, ainda a ser provada a viabilidade, agora contam com a Venezuela.
Adriano Pires, diretor do CBIE
Impacto marginal nas contas externas
A dívida da Venezuela com o Brasil é da ordem de US$ 2,5 bilhões. Esse valor representa apenas 0,7% das reservas brasileiras, que atingiram US$ 361 bilhões em novembro de 2024. Além disso, parte dessa pendência já foi contabilizada nas contas da União após o governo venezuelano deixar de pagar prestações de financiamentos.
Do total da dívida, cerca de US$ 1,5 bilhão representa financiamentos para a construção de obras de infraestrutura.
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por exemplo, abriu linha de crédito para projetos como a expansão do Metrô de Caracas e a construção da Usina Siderúrgica Nacional.
Pagamentos estão suspensos desde 2018. A Venezuela deixou de honrar regularmente os pagamentos há sete anos, somando cerca de US$ 500 milhões em juros não pagos. Financiamentos foram cobertos pelo SCE (Seguro de Crédito à Exportação), lastreado no FGE (Fundo de Garantia à Exportação), instrumento operado pela União para cobrir pagamentos a exportadores brasileiros em casos de inadimplência dos países importadores.
UOL